Na sequência do último Congresso Nacional do PS, o Secretário-geral António José Seguro lançou o desafio de repensar o PS e implementar as mudanças necessárias para a melhoria do partido.
Aqui vai um contributo…
Contributos para a Reforma do Partido Socialista
Considerações Gerais
- Reformar uma estrutura com a dimensão e a importância do Partido Socialista deve ser uma tarefa construída num novo patamar sem destruir as estruturas actualmente existentes.
As actuais estruturas estão consolidadas nas mentes dos militantes (secções, concelhias, federações e órgãos nacionais) e mal ou bem lá vão tentando funcionar.
As actuais estruturas têm muitos defeitos, mas destruí-las não pode ser o ponto de partida para a melhoria do partido.
O risco de insucesso na construção de novas estruturas é grande, porque estas têm de singrar pelos seus próprios méritos e virtudes demonstrados na prática e não por mera concepção teórica.
Destruir para construir de raiz não é um bom caminho.
Como dizia Isaac Newton “Se vi mais longe foi por estar de pé sobre ombros de gigantes.”
- Considero que o mundo está prestes a evoluir para uma nova ordem mundial. Assim como o “mundo comunista” desmoronou em 1991 depois da queda do muro de Berlim em 1989, também o “mundo capitalista” está prestes a ruir na sequência da crise do sub-prime de 2008.
Uma nova ordem mundial, um Governo Mundial, um sistema de justiça global, um plenário de representação legitimamente eleito, um conjunto de leis base aceite por todos.
Neste contexto de construção de um mundo novo não nos devemos constranger pelas dificuldades das mudanças, pelo esforço hercúleo da tarefa ou pelas impossibilidades da realpolitik.
O mundo está em modo pré-revolucionário e todas as mudanças podem acontecer muito mais rapidamente do que se julga.
Se duvida de que assim seja, retorne em pensamento a 2007 e diga-me lá se lhe parecia possível o mundo ocidental estar no contexto em que se encontra hoje…
Temos de ser ambiciosos e tentar criar uma visão global, ambicionar algo bem maior do que nós próprios e sonhar em grande.
“Nunca duvides que um pequeno grupo de cidadãos cheios de ideias e empenhados pode mudar o mundo. Na verdade, essa é a única via que conseguiu produzir mudanças até agora.” – Margaret Mead (Antropóloga Norte Americana)
- As soluções que aqui proponho são fortemente baseadas na Internet e em sistemas de informação.
É provavelmente um defeito profissional, uma vez que sou engenheiro informático… Como dizia Abraham Maslow “Se a única ferramenta que tens é um martelo, tudo começa a parecer-se com um prego.”
No meu ponto de vista, o futuro do debate político passa por construir as ferramentas informáticas que facilitarão o debate e a democracia.
Essas ferramentas, tanto quanto sei, ainda não existem …
Compete-nos a nós políticos dizer os requisitos para que os informáticos construam essa(s) ferramenta(s). O que deve permitir? O que deve impedir? Como deve ser estruturada?
Grande parte desta minha proposta assenta nessa ferramenta informática que permite estruturar o debate democrático.
Reforma do PS nos domínios:
A – Ideológico
O debate ideológico gira em torno de temas, causas e valores.
Definir que temas e que causas são as mais importantes é um dos passos principais na definição de um quadro de opções políticas que constituem uma ideologia.
Na tal ferramenta informática na Internet a construir deveria ser uma rede social, ou seja, um site onde cada utilizador se regista e associa-se aos seus amigos (conhecidos).
Deveria ser possível a cada cidadão (do mundo) registar-se com a sua própria identidade e não escondido atrás de nenhum pseudónimo. O anonimato permite o insulto fácil e irresponsável com dificuldade de actuação judicial. Não deve ser permitida a inscrição de uma mesma pessoa com diferentes utilizadores no sistema porque isso desvirtuaria a democracia das votações que existirão na ferramenta.
Cada utilizador deve ter um perfil onde pode facultativamente acrescentar informação relevante sobre o local onde vive (no mundo); idade; género; a sua área profissional; a sua formação e a forma como se posiciona politicamente nas classificações clássicas (liberal; comunista; social democrata; etc.); línguas que consegue entender e línguas em que se consegue exprimir de forma escrita; etc.. Todas estas opções devem ser com base em alternativas fechadas. Estas classificações são importantes para o sistema de filtragem colaborativa que é sucintamente descrito abaixo.
Temas e Causas
Os temas devem ser gerais e abstractos, podendo um utilizador propor a criação de um novo tema, que recolhendo o apoio de um determinado número de utilizadores passará a estar disponível para todos os utilizadores.
As causas são ideais expressos de forma simples, por exemplo: “garantir o pleno emprego”, “assegurar que ninguém morre de fome”, “promover o desenvolvimento sustentável”, “combater as desigualdades”. Também as causas devem poder ser propostas nos mesmos moldes que os temas, ainda que existam muito mais causas do que temas.
A ferramenta deverá funcionar de forma similar para os temas e para as causas, pelo que em seguida apresento apenas o funcionamento para uma delas.
A ferramenta deve permitir a cada utilizador escolher diversos níveis de temas. Cada utilizador pode indicar quais os temas que para ele são de 1.º nível, 2.º, 3.º, 4.º, etc.
O utilizador não tem de classificar todos os temas que são disponibilizados pela ferramenta, mas apenas aqueles que quer valorizar, podendo classificar nos diversos níveis tantos temas quantos pretender.
Todos os temas devem ser passíveis de tradução para as diversas línguas, uma vez que esta ferramenta visa ser uma ferramenta de âmbito global.
Os temas abstractos podem ainda ser subdividido em subtemas e em sub‑subtemas numa forma de hierarquia flexível em que cada utilizador pode estruturar como ententer.
Cada subtema deve ser a base para um fórum de discussão (moderado ou não) como os muitos que existem na Internet.
Cada utilizador deveria poder valorizar cada comentário feito pelos demais utilizadores no âmbito do fórum, por exemplo classificando de 1 a 5 para os critérios de qualidade da informação que abaixo apresento (eventualmente outros e com nomes mais simples):
- Grau de concordância
- Qualidade da informação intrínseca
- Exactidão
- Objectividade
- Credibilidade
- Reputação
- Qualidade da informação contextual
- Relevância
- Valor acrescentado
- Relevância temporal
- Completude
- Quantidade de informação
- Qualidade da informação representacional
- Facilidade de interpretação
- Facilidade de compreensão
- Escrita consisa
- Representação consistente
- Qualidade da Informação ao nível da acessibilidade
- Língua
- Média (texto; áudio; vídeo)
- Restrições de Nivel de Acesso (para organizações dentro da ferramenta)
Seria provavelmente interessante disponibilizar por omissão apenas o grau de concordância e apenas para os utilizadores mais interessados acederiam à página de classificação do conteúdo “avançada” classificando alguns ou todos os critérios de qualidade da informação disponibilizados pela ferramenta.
Com base nas classificações dos diversos utilizadores seria possível implementar algoritmos de filtragem colaborativa que permitissem a um utilizador seguir as linhas de discussão no fórum mais relevantes para si.
Os conteúdos no fórum poderiam ser revistos pelo autor, criando uma nova versão do mesmo conteúdo, mas em que as classificações feitas anteriormente teriam de ser revalidadas. As versões antigas seriam guardadas e podiam ser visualizadas a pedido.
Valores
Já no que respeita a valores, entendo-os mais numa perspectiva do indivíduo, ainda que a hierarquização dos valores seja relevante para hierarquização de crimes, criação das leis e a resolução de dilemas éticos.
Qualquer pessoa tem uma hierarquia distinta de valores e nenhuma pode ser considerada mais certa do que outra porque todas são aceitáveis.
Conhecer os valores que mais valorizados e os que os outros mais valorizam tornam-nos mais tolerantes e compreensivos para com as diversas visões e posicionamentos face a uma determinada questão em concreto.
Proponho-vos um exercício! Da seguinte lista de valores proponho que escolham os 10 ou os 20 que são mais importantes para vós (alguns dos valores até podem ser discutíveis…). Ao compararem a vossa escolha com a dos demais verão que nenhum de nós tem a mesma selecção de valores…
Abertura, Aceitação, Afecto, Alegria, Amor, Aprendizagem, Autenticidade, Aventura, Beleza, Bondade, Camaradagem, Colaboração, Competência, Compromisso, Confiança, Conhecimento, Contribuição, Cooperação, Coragem, Crescimento, Criatividade, Curiosidade, Dar Poder (Empower), Desafio, Desenvolvimento, Determinação, Devoção, Dinheiro, Disciplina, Diversão, Eficácia, Eficiência, Empatia, Entusiasmo, Envolvimento, Equilíbrio, Espiritualidade, Estabilidade, Estatuto, Excelência, Excitação, Família, Fé, Flexibilidade, Generosidade, Gratidão, Harmonia, Honestidade, Honra, Humildade, Humor, Independência, Influência, Inspiração, Integridade, Intuição, Jogar, Justiça, Lealdade, Liberdade, Liderança, Moderação, Natureza, Ordem, Paciência, Paixão, Parceria, Paz de Espírito, Perdão, Perseverança, Pertença, Prazer, Preocupar-se / Cuidar dos outros, Prestígio, Qualidade, Realização, Reconhecimento, Reflexão, Respeito, Responsabilidade, Riqueza, Sabedoria, Saúde, Segurança, Ser Genuíno, Serenidade, Sucesso, Ter Poder, Tolerância, Trabalho de Equipa, Tradição, Variedade, Verdade.
A escolha de valores que cada utilizador faz na ferramenta pode ser uma informação adicional a apresentar no perfil e pode ainda funcionar como critério de filtragem colaborativa.
Assim, seria possível ver como é que as pessoas que são mais próximas de nós (ou de outrem) em termos de valores classificam os conteúdos do fórum para os vários temas e causas. Ver quem são as pessoas que partilham o mesmo conjunto de valores é também uma mais-valia que a rede social desta ferramenta proporciona…
Filtragem Colaborativa
Uma filtragem colaborativa simples já existe no facebook com o “like”, bem como no Google +1.
Ao associar as nossas classificações às dos nossos “amigos” na rede social acrescentamos relevância e valor à informação, o que permite mostrar a cada utilizador uma informação muito mais interessante do ponto de vista de relevância da informação.
A ferramenta a construir deve permitir utilizar as informações que são introduzidas pelos utilizadores no seu perfil (local; idade; género; perfil político; etc.) para analisar como é que uma determinada segmentação (um ou mais critérios) valoriza as opiniões expressas na ferramenta na discussão de uma determinada área ou tema.
Assim, para um determinado tema ou causa, é possível ver os comentários melhor classificados pelas “mulheres, comunistas, de Barcelona” e compará‑los, por exemplo, com o de “homens, socialistas, de Freixo de Espada à Cinta”. Se faz sentido ou não essa comparação fica ao critério de quem a faz…
Também seria possível ver o posicionamento dos temas ou causas nos diversos níveis para uma determinada filtragem “homens, Portugueses, com mais de 50 anos” com base em médias ponderadas das classificações para cada filtragem.
Outro critério muito relevante é a língua em que são expressos os comentários, apenas apresentando a cada utilizador aqueles comentários que estão na língua que ele entende.
A filtragem colaborativa permite conhecer as opiniões de forma segmentada, o que é uma excelente solução de sondagem das opiniões para os mais diversos públicos alvos e para a definição de uma política de comunicação.
A filtragem colaborativa permite valorizar os políticos que apresentam melhor as suas opiniões e testar o seu nível de concordância com as mesmas.
A filtragem colaborativa é um verdadeiro laboratório de ideias!
Organizações
A ferramenta deveria ainda permitir a criação de organizações, por exemplo, o Partido Socialista Português ou sub-grupos desta organização (p. ex. Secretariado Nacional), permitindo que a determinados temas ou causas públicos no fórum de discussão só tivessem acessos os membros dessa organização ou sub-organização.
Isto permitiria que numa mesma estrutura aberta de temas e causas existisse a discussão privada para grupos.
Cada utilizador pode pertencer simultaneamente a diversos grupos (mais ou menos numerosos), podendo alguns deles ser de adesão livre não moderada e outros sujeitos a aprovação de entrada com base em regras próprias.
Seria também possível ver como classificam a informação expressa nos fóruns para os diversos temas e causas a globalidade dos membros de uma organização.
B – Organização
Se os cidadãos do mundo participassem nesta ferramenta, quer o Partido Socialista, como todos os demais partidos e organizações, teriam uma infra‑estrutura de promoção e discussão de ideias, de filtragem dos conteúdos de forma colaborativa e segmentáveis por multi-critérios.
Seria uma utilização que quebrava o peso do critério geográfico das freguesias que ainda hoje domina a estrutura hierárquica do partido. Permitiria a participação livre e num âmbito global na discussão dos mais diversos temas.
Como se faz a síntese?
Caberia aos órgãos legitimamente eleitos do partido a definição das opções políticas para as mais diversas áreas. Permitir-se-ia às organizações (ou sub-organizações) a colocação de conteúdos que veiculavam a cada momento a posição oficial dessas estruturas.
C – Democrático
Pode esta ferramenta substituir as actuais estruturas do Partido?
Em teoria sim. É possível representar todo o território, todas as áreas temáticas, todos os géneros, etc. Logo é possível ter na ferramenta uma amostra representativa do debate em curso sobre os mais diversos assuntos.
No entanto esta ferramenta assume o uso fluente da Internet e ainda apenas 40% das casas dos Portugueses tem computador…
Como se fariam votações na ferramenta?
Parece-me que não sentido votar ideias. Todas as ideias podem ser classificadas pelos diversos utilizadores com base nos diversos critérios de qualidade da informação que apresentei acima.
Como se poderiam fazer votações para pessoas?
Poderiam existir listas completas como acontece actualmente, mas penso que o melhor método era o da escolha directa individual.
Imagine que cada utilizador de uma organização tinha 100 votos e que os podia distribuir pelos diversos membros da organização da forma que melhor entendesse. Assim, poderia utilizar a ferramenta para avaliar quais os membros com maior mérito, que lhe mereciam maior confiança, etc. Atribuiria em seguida N votos ao utilizador A, M ao B, etc.
As regras de cada organização podem estabelecer limites sobre o número máximo de votos a poder atribuir a cada membro, ou mesmo dizer que apenas pode dar um voto a cada membro…
Seriam eleitos os mais votados em número absoluto de votos.
Ainda que deva ser mantido o secretismo de voto, deveria ser possível ao eleito ver as classificações dos conteúdos da ferramenta pelos olhos dos que votaram nele, com possibilidade de segmentação multi-critérios, ainda que com limites para garantir o secretismo de voto dos membros.
D – Programático
Esta ferramenta recentrava a discussão política nas ideias, nas causas e na discussão temática.
Ainda que pouco relacionado com o disse atrás, gostaria de aqui abordar a estrutura de um futuro governo socialista. Gostaria de aqui defender que em vez de ministérios funcionais e extremamente hierárquicos existisse alternativamente uma estrutura governamental em Matriz sobre a qual se implementavam projectos.
Num dos eixos da matriz existiriam os grupos de competências profissionais (informáticos, médicos, professores, juristas, economistas, administrativos, auxiliares, motoristas, etc.). Os grupos profissionais teriam grande mobilidade no final de cada projecto.
No outro eixo da matriz estariam desafios estratégicos como por exemplo: conhecimento, equilíbrio orçamental, bem estar, globalização, sustentabilidade, etc.
Os projectos, permanentes ou limitados temporalmente, juntariam equipas do eixo das competências com as equipas dos desafios estratégicos (políticos) para a definição e implementação de projectos com um responsável claro e com objectivos mensuráveis e prazos de execução bem determinados.
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