A entrevista de Agostinho Soares ao Diário de Notícias de hoje é tão interessante que a publico aqui na integra.
Este é um daqueles posts que há de merecer muitas referências ao longo do tempo neste blog dada a quantidade de afirmações interessantes que contém. Uma coisa é certa, nesta entrevista o jornalista pergunta e o entrevistado responde sem a habitual conversa da treta que muitos políticos gostam de usar.
A entrevista do actual secretário geral deixa tudo muito claro: as motivações da actual direcção, os seus actuais adversários, as suas ambições, os seus objectivos eleitorais, e a sua estratégia de poder interno. Apenas constato e para já evito adjectivar mais…
http://www.dnoticias.pt/Default.aspx?file_id=dn04010102130409
Entrevista com Agostinho Soares
Jogadas começaram “no dia do congresso”
Secretário-geral do PS-M garante que há quem esteja à espera de um mau resultado eleitoral, desde o último congresso. Gouveia já não é líder de transição e a meta é 2011.
Neste momento é o ‘Novo PS’ que manda no PS-M? O ‘Novo PS’ acabou com a primeira vitória do Jacinto Serrão. Naturalmente que aquilo que me ligava politicamente ao PS eram as ideias que o João Carlos Gouveia defendia, a propósito da situação regional, da concepção que tem da vida interna e democrática dos partidos.
Ideias que nem sempre foram compreendidas.
Alguma comunicação social regional tem desvalorizado o papel e a importância que o João Carlos Gouveia tem, e teve, na concepção democrática dos partidos. O João Carlos Gouveia ganhou o partido recentemente, mas as suas propostas são antigas. As grandes vitórias do ‘Novo PS’ foram as eleições primárias – ainda não estão institucionalizadas mas se estivermos cá até 2011 essa questão será colocada -, a eleição directa do presidente do partido, o fim das inerências… Estas foram propostas inovadoras que nenhum partido, ao nível nacional, defendia e que o primeiro a fazê-lo foi João Carlos Gouveia.
Todas essas propostas de mudança geraram anticorpos no partido? Muitos anticorpos, muitas fracturas, muita contestação a este movimento, mas o partido também foi sacudido. Havia uma certa passividade. Estes trinta e tal anos de poder são muito mérito do PSD, mas também há alguma passividade, uma aceitação quase fatalista por parte do PS. Era uma teoria de ‘perder por pouco’.
Fez referência a estar por cá em 2011. Essa é uma questão polémica, porque há muitos militantes que recordam que a candidatura de João Carlos Gouveia era de transição e limitada no tempo, até 2009. O que é que mudou? Quando o João Carlos Gouveia apresentou uma candidatura ao congresso, que foi aceite pelo partido, era transitória e institucional. A partir do momento em que, dentro daquilo que era considerada a institucionalização dessa liderança, houve fractura, falta de solidariedades políticas, falta de aceitação e de confiança, tudo mudou. Não eram, apenas, críticas nos lugares próprios, mas jogos e estratégias que vimos que passavam das questões de liderança. Estava quebrada a ideia de uma candidatura institucional.
Assumem que vão ao próximo congresso para discutir a liderança e para levar o partido até às eleições de 2011? Sim, isso é assumido.
Essas questões de falta de confiança tiveram os efeitos mais visíveis no afastamento do líder parlamentar, Victor Freitas e do secretário-geral, Jaime Leandro. Não foi uma situação extrema, sobretudo para um partido que vem de resultados eleitorais traumáticos? Algumas pessoas até entenderam como tal. Há que ter em atenção que houve pessoas que se mantiveram no poder com o José António Cardoso, retiraram-lhe o tapete e continuaram, estiveram no poder com Jacinto Serrão e no final do mandato viu-se que as solidariedades políticas não existiam, continuaram…
Refere-se a Victor Freitas? Naturalmente. Essas pessoas continuaram com o João Carlos, que não tinha forma de chegar ao poder sem elas e acreditou que com ele seria diferente. Enganou-se, porque estavam a tentar comportar-se com ele como se comportaram com outros.
Foram só Victor Freitas e Jaime Leandro a estar envolvidos nas estratégias a que fez referência? Naturalmente que não são os únicos e têm junto a si mais meia dúzia de militantes, porque são pessoas que tinham algum poder interno. Acreditaram que tinham um pedacinho mais do que na realidade se viu. Isto tinha de ser feito, porque quando se aproximam eleições e disputa de lugares acontecem, sempre, estas manobras. Foi assim com o José António Cardoso que se demitiu depois de levar uma lista que não foi aceite pela comissão política. O PS-M e os próprios madeirenses não podem estar sujeitos, ciclicamente, a estes jogos.
Foi isso que conduziu a todos estes anos de derrotas eleitorais? Para além do valor do PSD, foi muito por isso. Não tenhamos dúvidas de que algumas pessoas tinham razão quando viam no PS o partido que geria lugares, listas e não passava disso.
O PS-M pode prescindir, como tem feito ao longo de muitos anos, de figuras mais mediáticas? Perdeu Rita Pestana, perdeu muitos outros, perde agora Victor Freitas e Jaime Leandro. O partido pode dar-se a esse luxo? Acha que foi um drama o PS ter perdido a Rita Pestana?… Em relação a estes militantes, reconhecemos um trabalho magnífico do Victor Freitas enquanto líder parlamentar, reconhecemos alguma capacidade e poder argumentativo ao Jaime Leandro. Outra coisa, são as confianças políticas que os lugares que ocupavam exigiam. O valor deles não se discute e ainda bem que o PS os tem como seus militantes.
Em função dessas mudanças, surgiram figuras quase desconhecidas nos órgãos do partido. Era a altura certa para lançar essas pessoas? Se ouvirmos os cidadãos, o que eles dizem é que estão cansados destes políticos e que até era bom aparecerem caras novas. É tudo gente com vontade de participar e com competência técnica nas suas áreas.
Outra questão polémica, associada às demissões, foi a área financeira, mais precisamente a venda da antiga sede. Já está tudo esclarecido? A Comissão Económica e Financeira está a analisar essas questões e muita coisa foi esclarecida. Do ponto de vista da gestão, naturalmente que houve coisas boas. A venda da anterior sede, no momento em que foi, foi um bom negócio, bem como a passagem para a nova sede. Agora, há uma ou outra questão que terá de ser clarificada.
Estamos num ano com três eleições, quais são os objectivos do PS-M? Nas ‘europeias’, é acreditar num bom resultado do PS, para que o dr. Emanuel Jardim Fernandes se aproxime de um lugar elegível. Quanto às eleições legislativas nacionais, dadas as circunstâncias eleitorais, ninguém que esteja bem intencionado pode exigir que o PS-M repita os resultados de 2005. Não se vive um momento de elevação de José Sócrates e também há o facto de o PSD estar a repetir, constantemente, o discurso da vitimização em que tudo é culpa do primeiro-ministro, por isso é muito difícil que consigamos os três deputados. O nosso combate é para que tenhamos dois deputados.
Um objectivo que também não é fácil. Sim, mas que está ao nosso alcance. Se não conseguirmos dois deputados é que será mau.
Para as autárquicas a meta é ambiciosa. Apostam na conquista de câmaras? Há concelhos em que, nas anteriores eleições, estivemos próximo de ganhar…
Santa Cruz foi um deles, mas parece difícil repetir o resultado. Em Santa Cruz é extremamente difícil ter o mesmo resultado, atendendo ao facto de o Filipe Sousa ter seguido um caminho próprio e ter sido a figura em que o PS apostou, durante vários anos. Foi uma figura que também se apoiou no PS para crescer eleitoralmente, mas que agora concorre como independente. Isso, naturalmente, terá repercussões. No entanto, penso que o candidato que vamos apresentar, que será uma surpresa agradável, é para tentar ganhar.
Não quer revelar o nome? Será uma surpresa, mas haverá outras. Quanto à câmara do Porto Moniz, é uma aposta para ganhar, em São Vicente concorre o líder do partido e também acreditamos que podemos ganhar. Na Ponta do Sol também tivemos um bom resultado e acreditamos que podemos repetir.
Sem José Manuel Coelho, que já disse que não concorre? Temos alternativas na Ponta do Sol. Ele era um candidato natural e é incompreensível o comportamento e as desculpas apresentadas, atendendo a que o partido sempre mostrou enorme solidariedade e disponibilidade para com o José Manuel Coelho.
Foi mais uma ‘jogada’ dentro do PS-M? Tem a ver com isso, naturalmente. Tem a ver, já, com as estratégias de posicionamento de grupo.
O Funchal não é uma prioridade? Não é isso, o Funchal é, para nós, a primeira prioridade. Não posso é dizer que vamos tentar ganhar se, hoje, ainda não tenho a certeza da vontade do candidato.
Carlos Pereira ainda é uma possibilidade? A comissão política concelhia, em debate interno, mostrou vontade em que fosse o Carlos Pereira. Ele, por alguma estratégia política, entendeu que não era o momento ideal para confirmar. Quando for o momento exacto, esperamos que demonstre vontade em tentar ganhar a câmara.
Não é complicado apresentar um candidato que perdeu o mandato? O PSD tem apresentado, continuamente, pessoas que têm contas a prestar, não só à justiça como aos cidadãos. Em relação ao dr. Carlos Pereira e aos que perderam o mandato não houve, e isso é público, nenhum crime ou ilegalidade. Houve o não cumprimento de um preceito administrativo que deveria servir de exemplo, para não repetir o que se pode considerar um certo amadorismo.
O que se pode esperar das campanhas do PS-M? Vão ser muito direccionadas para o contacto entre candidatos e eleitores. Uma campanha com muito porta-a-porta e menos mediatismo. Vamos fazer dois ou três comícios, naturalmente com o habitual artista para animar, mas pensamos que isso é um espectáculo que faz parte do ritual da política, mas que não é fundamental.
Um dos problemas tem sido passar a mensagem de João Carlos Gouveia? Eu penso que o líder do PS tem uma mensagem simples. Os comentadores e jornalistas podiam estar mais atentos ao que acontece com o líder do PS, no contacto com as populações, e menos ao que se diz no espaço entre o ‘Apolo’ e a Assembleia.
O facto de João Carlos Gouveia fazer referência, sistematicamente, a acontecimentos de 1975 não complica a mensagem do PS? Foi fundamental, numa primeira fase, o líder ter um discurso forte e agressivo em relação ao fenómeno da corrupção. Explicou que a corrupção não era uma situação circunstancial, mas que estava ligada à instalação de um regime que começou nesses anos. Historicamente, não se pode explicar a situação que se vive, hoje, na Madeira, sem fazer referência a esses tempos. Ainda hoje tenho amigos que, quando falam comigo, falam baixinho e olhando para o lado. Como é que se explica isto? Só podemos explicar por todo um processo de mais de trinta anos. No entanto, se estiverem atentos, verificam que esse discurso acabou no final de 2008. Depois, o líder do PS passou para uma segunda fase do discurso, que é de alternativa e mudança.
Uma liderança que poderá ser posta em causa, em função dos resultados eleitorais. Admite que possa haver quem esteja à espera de um fracasso desta direcção? Naturalmente, desde a primeira hora, desde o dia do congresso. Quando um militante, que não vou nomear, disse ‘isto são dois anos, passam depressa’, expressou o que ia na alma de meia dúzia de outros militantes.
Gouveia não espera mais por Carlos Pereira
O gabinete de estudos do PS-M vai avançar, nos próximos dias, por iniciativa do líder. João Carlos Gouveia entregou a organização deste grupo de trabalho a Carlos Pereira, um independente mas, até hoje, não foi apresentada nenhuma equipa.
Agostinho Soares assegura que a direcção do PS-M “não vai esperar muito mais”. O gabinete de estudos avança, “com, ou sem” Carlos Pereira.
Parado também está o departamento de mulheres socialistas, envolvido numa disputa legal entre as listas candidatas. Uma situação que “não é da responsabilidade da direcção” e que, segundo o secretário-geral, “depende, apenas, de uma decisão do Conselho de Jurisdição Nacional”.
Na lista de organismos socialistas que não funcionam também está a associação de autarcas que, refere o dirigente do PS-M, enquanto foi presidida por Filipe Sousa – agora independente – “não funcionou”. O PS-M aguarda pelas eleições autárquicas para voltar a dinamizar esta associação.
Comentários Recentes